terça-feira, 10 de junho de 2008

Parte 6 - pequeno epílogo

-"Diretor, algo errado?" - Disse Francis, com ar preocupado.
-"Não, Francis. Está dispensado" - O diretor falava de costas, sem encarar o treinador. Parecia perturbado ligeiramente.
...
-"Estou indo então"
-"Francis?"
-"Sim?"
-"Estava escutando atrás da porta?"
...

Francis lambe os lábios ressecados, repuxa a aba de seu boné mais ainda sobre a face, e parte em silêncio.

...

Parte 6

Michel estava visivelmente apreensivo. Franzia o cenho, e constantemente alinhava a mecha que lhe caía à testa. Mesmo aos vinte e cinco anos, ainda insistia em manter aquele corte estilo 'Boy Band'. Ele tentava manter a compostura, visivelmente ao menos.

O diretor Maximilliano sentava-se calmamente, buscando com o maior tato possível chegar ao assunto. Começou.

-"Senhor... Michel... e Senhora... " - O casal estava realmente apreensivo, e a oratória cuidadosa e pausada do diretor só aumentava a tensão no ar - "Os senhores têem uma filha adorável, muito inteligente... e promissora... A Alexa parece se sair bem em todas as disciplinas, e devo crer... que isto se deva a uma educação excepcional em casa, já que ela se comporta... de maneira bastante... despojada em classe...

Diante dos olhares arregalados do casal, o diretor decidiu ser mais direto e simplório. E Michel tinha motivos para estar assim. Ele já conhecia este linguajar eufemista. Ele próprio havia sido alvo deste tipo de comentário, quando mais novo. Maximilliano não era um homem muito criativo com as palavras, apesar de ser um homem letrado.

-"Vejam bem... Observamos que a sua menina, a Alexa, ela não tem se relacionado bem com seus colegas. Na maior parte do tempo ela é amável e prestativa, mas também tem uma personalidade difícil. Ela parece ter alguma... carência afetiva, e uma grande necessidade de auto-afirmação. Ela deixa pouco à vontade os colegas mais velhos e alguns professores. Muito embora muitas das histórias sejam meio estranhas, certamente fruto da imaginação impressionável dos mais novos, é algo que vale a pena dedicar um pouco de atenção. Ela também passa muito mais tempo com alunos das outras classes que com seus colegas. Eu gostaria de sugerir que não desperdicem o potencial dela, posso indicar uma escola para jovens acima da média..."

Ângela interveio, depois de seu longo silêncio - "Senhor Maximilliano, não gostaríamos de tirar a Alexa daqui. Ela já veio de uma outra escola, e queríamos (entreolha-se o casal momentaneamente) que ela recebesse uma educação mais normal possível. Com oportunidade de interagir com pessoas de sua idade num ambiente comum, ela pode se tornar uma pessoa mais tolerante..."

-"Entendemos seu ponto" - fala o diretor - "só receio que isso iniba os demais. Na verdade ela é um doce de pessoa, apenas um tanto imodesta. Nosso departamento de Orientação Educacional tem ouvido o nome dela um pouco mais que o natural... nada concreto. Por isso convocamos os pais para conversar, e ver o que pode ser feito com relação a isso...

-"Disse algo quanto aos professores" - Era a vez de Michel.
-"Aham, sim... a Alexa é bastante desenvolvida, e acaba gerando algumas situações desconcertantes ao discutir com alguns deles. Ela parece ter um ótimo poder de argumentação, se expressa muito bem para a idade. Longe de mim considerar isso um mal... o problema é que ela interfere com o andamento das aulas, impondo uma gama de questionamentos precoces... os professores também falam sobre o comportamento irreverente dela..."
...
O casal dá as mãos em sinal de cumplicidade. "Iremos ver o que anda acontecendo, diretor. Se isto é tudo, vamos levar nossa menina para casa agora" - Diz Michel.
"Não se preocupem, ela está na quadra para os treinos da tarde. Ela realmente gosta de fazer amigos, embora sejam bem maiores que ela. Ela sempre opta pelos esportes coletivos, eu recomendaria que ela usasse sua aptidão para esportes de atletismo, ou ginástica. Ela tem uma inteligência motora tão desenvolvida quanto as demais, e acaba ficando um pouco contida pela necessidade de trabalhar em equipe. Mas já mandei chamá-la."

A porta se entreabre. Treinador Francis esgueira sua face bronzeada e rude pelo vão da porta, precedida pela aba do boné vermelho de estimação.

-"Diretor, eu trouxe a menina."
-"Tempo perfeito! Pode entrar, Alexa. Seus pais estão aqui esperando por você."
-"Filha" - Disse Ângela, tomando as duas mãos da garota nas suas e olhando bem em seus olhos - "Precisamos ter outra conversa daquelas."
-"Pode crer que sim" - Completa Michel - "Obrigado diretor, estaremos sempre em contato. Agora deixe conosco.
-"Claro, claro. Ela é muito querida aqui, faremos sempre o melhor para cuidar dos seus pequenos como sua segunda casa" - Com essas palavras ensaia um desajeitado afago para a menina, mas algo na maneira de que ela o olhou o fez recolher a mão de forma ainda mais desajeitada - "Tenham uma boa tarde".

A menina tinha uma expressão amuada.

Parte 5

"Piiii" - soa o apito. Depois de voltas e mais voltas ao longo do aro, a bola finalmente encontra seu destino dentro do cesto. Três pontos. Ela sempre fazia isso.
'YAY!' - Grita em triunfo, com aquele típico gesto de puxar o punho em direção ao peito. Os demais olhavam, desanimados. Outra derrota para o time ginasial amador de St. Louis de basquetebol. O time vitorioso também não se portava com grande surpresa. Apenas atônitos como sempre, foram cumprimentar sua excepcional cestinha, que era considerada uma mascote pelo seu time. Com seus nove anos, ela ainda não podia competir oficialmente com seus colegas. Participava então dos treinos, todas as tardes. O time estava afiado, entrosado e ágil. Sua pequena estrela 'café-com-leite' limitava-se a devolver os rebotes, marcando cestas de três pontos debaixo de sua própria tabela. A marcação sobre ela era feroz, mas aquela pulga de 1,10m era muito ágil para aqueles aesires ginasiais, e ela usava cada abertura que surgia, seja quicando a bola ou arremessando diretamente.

"Valeu irmãzinha"; "Arrasou de novo" - Todos a afagavam, pegavam, apertavam-lhe as bochechas, a punham sobre os ombros. Era aquilo que ela adorava. Tá, isso também. A frustração engolida, o choro contido no banheiro, a decepção dos vencidos... só de ver aqueles peitos-de-pombo esvaziarem como bola murcha, ah! Como era gostoso colocar aqueles pretensos e orgulhosos quase-homens no chinelo! Se fosse só por isso, já valia a pena! Mas, ainda que um pouco assustados, seus companheiros a mimavam como a uma irmã mais nova.

"Alexa!" - Gritou o treinador - "Seus pais estão aqui para buscá-la!"

Alexa tremeu.

Não de novo! Por favor!