quarta-feira, 28 de maio de 2008

Parte 4

O George tinha razão.

Entre amendoins e cervejas, nesta mesma mesa sebosa, ele me disse:

"Não importa a mínima o que se tem. Não somos criaturas coerentes. Se não temos aquilo que queremos, o que almejamos, não temos nada."

Sinceramente, o que eu tenho? Alguns amigos, uma casa quente, um emprego estável. Aquela bosta. Ninguém pode crescer naquilo. Mas alguém tem que fazer. Acho que a minha cara é mais conhecida nesse buraco depressivo, do que em qualquer outro lugar. O barman me conhece pelo nome, aqui minhas histórias circulam, bem ou mal, é claro. Mas tenho um refúgio, sim, eu tenho caro George. E tenho minha liberdade. Sim, hoje um homem na minha idade não poderia estar nesse pardieiro quando bem entendesse. O Moisés abre isso aqui sempre, todos os dias. Feriados, Natais, Páscoa... Alguns poderiam dizer que o Moisés é um homem sem vida e sem coração. Mas estão enganados. Ele não faz isso pelo dinheiro, embora tenha uma 'dura política sobre serviço a crédito'. Não. O Moisés é uma mãe e um pai. Ele sabe que pessoas como eu, ou mesmo uns tantos outros homens de família, têem aqui o seu refúgio. É aqui que eu, o George, o Álamo, o Sancho nos encontramos desde a faculdade. Sim, tenho companheiros fiéis. Alguns diriam amigos. Acho que sim. O som desta velha e monótona jukebox, essa luz amarelada, o murmurinho dos ébrios, essa atmosfera cheirando a tabaco, lúpulo, roupa velha e lenha crepitante. Essa é a minha verdadeira casa. Não aquela onde eu durmo, como. Aquela cujos azulejos, telhados, eu já recontei infinitas vezes, como já o fiz aqui. Aquela onde o único murmurinho é o som da tv ligada por toda a madrugada. Esta aqui. E o Moisés, é mais compreensivo e gentil do que alguém poderia esperar de qualquer esposa e seus ataques hormonais, seus desejos maternais, suas cobranças... sim, eu sou feliz. Eu poderia até mesmo descer a estrada, e mulheres de toda sorte estaria tentando a sua própria em outros bares, perdidas como eu, e buscando um consolo fugaz para uma noite fria. Sim, e se eu quisesse, poderia forjar um relacionamento duradouro. Porque não? Tenho bons dentes, um sorriso franco, ainda estou em forma. Eu poderia até vender enciclopédias, e ser bem recebido! O que mais poderia querer?

-"Vai querer mais uma?" -Fala a voz fanha de Moisés.Ninguém é perfeito.

-"Sim, bem gelada. E uma Escura também. E, Mô, seria demais pedir outro prato daquela coalhada bem assadinha?"

-"Tanto quanto "pedir" seja algo que você pretenda pagar. E pare de me chamar de Mô! Com esse apelido, e esse tom de voz afetuoso, vou começar a achar que vc está querendo casar comigo, e posso acabar aceitando." -E se volta- "Mas vou avisando, eu ronco pra cacete, não me depilo, e quando eu acordo de manhã minha cama parece que foi visitada pelo Katrina" -Prevenia em tom jocoso.

Rimos. O Moisés é um cara divertido, de raciocínio rápido e que sabe como elevar o ânimo de sua clientela. Seu humor é persipcaz; e com efeito, um homem de avental servindo bebidas e petiscos no feriado para bêbados, flácidos e carentes de atenção realmente soa como algo matrimonial. Ele é um bom homem, e já foi casado. Mas a bebida e o jogo não foram bons com sua família, e hoje o seu maior legado lhe foi deixado por sua ex, quando ela lhe disse "Já que não consegue largar a garrafa, por que não faz disso a sua vida"? Assim mesmo ele fez, juntou o dinheiro de um azarão e comprou esse bar. Fez disso um ambiente aconchegante, e para os padrões masculinos, limpo e respeitoso. Lá estava ele, rodeado de garrfas de bebida, transformando sua antiga fuga num meio honesto de vida. Bom Moisés...

E o George? Esse era um cara bom também. A maioria das pessoas se deixava levar por seu aspecto exterior inexpressivo, e ele próprio era um tanto lacônico com estas pessoas. Dane-se o que as pessoas pensam, dizia ele. Apesar de seu gesticular frenético, e ele era uma pessoa sensata quando discutia qualquer coisa. Morava com o pai, um homem rude, até a faculdade. Desde então rompeu contatos com ele, e se tornou essa pessoa um tanto simples, mas com um bom olhar sobre as pessoas. Era um bom filósofo, muito embora a academia não concordasse com esta colocação. Hoje somos amigos e colegas de trabalho.

Álamo sempre foi o franzino. Baixa estatura, magro, face marcada por vincos precoces desde o colegial. Ele não era ruivo, mas podia muito bem ser; ele era imaturo, e estava todo o tempo tentando se afirmar em alguma coisa. Geralmente contava histórias amorosas dignas do Barão de Munchäusen, se fosse do feitio do mesmo fantasiar mulheres fantásticas e seus encontros nada casuais. Mas era impetuoso e leal, e se em muitos momentos a amizade em nosso grupo estivesse ameaçada, era ele a levantar a bandeira do que cada um de nós era um para o outro. Quando não contava absurdos bombásticos para nos entreter, ele sempre falava como "Nós" e não "Eu". Ele e o Sancho sempre discutiam.

Sancho era um apelido, pois ele tinha ares latinos. Um grosso bigode fazia contraponto à sua face rotunda, assim como o resto dele. Ele sempre tinha uma postura áspera, e segundo ele, 'realista' das coisas. Tinha a mania de falar alto, e sua postura 'macho' por vezes o fazia soar como um exibido. A seu modo, ele era como o Álamo, só que com maior sinergia. Ele era todo auto-afirmação; e por este vero motivo é que ele e o Álamo brigavam tanto. Para o Sancho, Álamo era um perdedor que vivia escondido em suas mentiras sem pé nem cabeça e incapaz de encarar a realidade. E para o Álamo, o Sancho era um mentiroso que usava a própria pose para ser visto como alguém importante. Mas eles eram goiabada e queijo.

"Encontro vocês lá", eu menti. Esta noite está havendo um baile dos veteranos na antiga faculdade, e seria a ocasião perfeita para reviver os velhos tempos. Mas eu estou cansado de reviver os velhos tempos. Revivemos os velhos tempos e celebramos nossa amizade neste mesmo lugar ao menos duas vezes por semana. Hoje é um dia amargo para mim. Quase toda a cidade vai estar lá, e eu já revivo os meus fantasmas todos os dias. Não preciso encontrá-los pessoalmente e cumprimentá-los. Especialmente o 'Boi Ted', a mascote do time em que eu jogava. Ou a Jeanine pom-pom, animadora de torcida. Reitor Micael... a mesma múmia há mais de trinta anos. Dizem que o mal nunca morre, e ele é a prova viva (risos) disso. Não, já chega. Deixem celebrar. Hoje, é a MINHA noite especial. A mais importante dessas três décadas e meia. Hoje a gorjeta do Mô vai ser gorda...

...

2 comentários:

Ricardo Takeru disse...

A internet e suas mensagens "instantãneas"!

Passei um longo tempo até definir de que maneira seria a quarta parte. Deixei dois rascunhos prontos, e noite após noite eu olhava para eles, tentava aprimorar, mas algo estava errado.
Graças a uma rara madrugada silenciosa, e uma conversa casual, eu tive um flash!
Como de costume, a melhor fonte para minhas histórias é o lado de dentro de minhas pálpebras. Repensando alguns fatos sobre meu próprio cotidiano, eu pensei... " a narrativa é esta! É deste jeito que eu quero escrever a quarta parte!"
Sentei-me aqui e escrevi como há muito não escrevia. Fiz referências pop, humor, ponderações. Dei mais vida ao Donovan, ao delinear quem ele era ao mundo. Eu não sabia como ia fazer, só sabia o cenário e acontecimentos superficiais. E uma homenagem velada ao meu involuntário ajudante.
Minhas conversas recentes com frequentadores deste espaço deram uma idéia sobre o que escrever na parte seguinte. Quero confirmar isso, porém.
Há um outro ponto importante a esclarecer: Esta não é uma obra autobiográfica. Nem metaforicamente.
Claro, há coisas semelhantes ou próximas. Acredito que não há como desvincular uma obra de seu contexto, e neste caso, contexto representado através de interações humanas e com a vida acabam respingada de julgamentos próprios, experiências pessoais e afins.
Da mesma forma ocorre com o Público da obra. Muitas vezes, sua visão da mesma será um espelho de suas próprias crenças e atitudes. Essa comunicação é essencial ao princípio da arte, e quanto mais licenciosa esta for, mais ampla será a visão ao seu respeito.
Na verdade, não é um empecilho para mim que acabem achando que eu sou o Donovan, e que a garota seja alguém que eu conheço. A narrativa tem uns elementos bem irreais, e com o tempo essa dissociação se fará sentir. Se mesmo para o Leonardo DaVinci dizem que a Monalisa é um autoretrato, como escaparia eu de semelhante cogitação?
Sim, Donovan é parte de mim. Eu o criei. E eu sou parte dele. Assim como todos os demais apresentados. Estranho seria eu dizer que estou escrevendo com elementos que me são alienígenas.
Da mesma maneira, os personagens coadjuvantes não representam nenhum dos meus conhecidos em particular, ainda que um maneirismo, um nome ou uma fala corresponda a alguém próximo a mim. Há diversas camadas a analisar, não é meu objetivo transformar este escrito num teatro de imitações jocosas de pessoas próximas a mim.

"Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou acontecimentos reais é mero devaneio intelectual."

Anônimo disse...

A narrativa é excelente Richard! A menção do relacionamento entre os amigos é fascinante. Remonta propositadamente um saudosismo de nossos áureos tempos, e que ainda se faz tão presente em nossas vidas, já que estamos fadados a sermos (e graças a Deus por isso) eternamente amigos. Ao ler, me senti profundamente lisonjeado ao ver meu nome sendo relacionado com uma figura um tanto insólita, um tanto amável, e porque também não dizer hermética. Sua estilo literário é fascinate, termos bem aplicados, estrategicamente colocados o "tempo." Se precisar de parceria, me auto-convido. Será um prazer compartilhar esse desafio. Afinal, somos irmãos, e mais do que isso, somos amigos!