terça-feira, 20 de maio de 2008

Parte 3


Não houve resposta. Nada além daquele sorriso presunçoso e moleque. Sentada novamente nos bancos traseiros, ela o fitava zombeteira pelo retrovisor. E toda aquela segurança o irritava. Donovan soube que falou demais.

A petulante então avançou por entre os bancos frontais, a fim de encarar seu irritadiço interlocutor. Irritação de mentira, ela havia constatado. Assim como também descobrira que ele não iria a lugar algum com aquele carro até que ela saísse de lá, apesar das diversas ameaças que Donovan ensaiava. E ela nada fazia além de olhar para ele com aquela profundidade perturbadora, e seu sorriso pueril, lábios ligeiramente entreabertos deixando os incisivos à mostra.

E Donovan sabia que ela estava lendo cada movimento, cada olhar, cada bufar de sua parte. Ele se sentia nu, desprotegido... "Desgraça! Pra que MERDA eu fui falar aquilo?" Ele estava posto em mesa, e aquela... aquela... Ela o estava saboreando, esquadrinhando, analisando e sintetizando... Ele tinha que acabar aquilo, e agora!

"Tá bom, o que é que você quer?" Donovan dizia isso meio como uma espécie de rendição velada. Ele recua o corpo, já que a menina e ele estavam tão próximos que ele respirava o mesmo ar que a garota. Cheirava menta, mas não parecia ser chicles ou coisa parecida. Seu hálito era fresco, naturalmente, e Donovan disfarçadamente o inspirava...

"Apaga isso! Está empesteando tudo!"-brada a garota. Ela avança para alcançar o cigarro em sua mão esquerda, fazendo com que praticamente se debruce sobre o motorista. Toda ela cheirava a orvalho da madrugada sobre flores, desfilando diante de seu nariz. Num gesto fugaz, ela o desarma de sua chaminé particular e atira seu cigarro pela janela, e volta a sua posição inicial.

-"Bem melhor agora", disse a garota com ares de triunfo.

2 comentários:

TUNDARN disse...

Danadinha ela.

Ricardo Takeru disse...

Olá de novo!
Relendo esta postagem, eu fiz uma descoberta interessante. Neste momento eu já havia divulgado a quarta parte, e percebi que a narrativa cada vez mais se aproximava da primeira pessoa, até que na parte seguinte as memórias são narradas nesta perspectiva.
Entre o final da Parte 2 e esta, há todo um diálogo subjetivo entre os dois. Eu tenho a preocupação sobre isso ser ou não perceptível.
Mas a parte mais importante é que nesta parte eu revelei o nome do protagonista, Donovan. Não muito exótico, nem popular demais. Até o momento, esta é uma história apátrida, desta forma tento fazer a história parecer um filme, tão familiar que não soa estrangeiro nem nacional. Uma história sobre pessoas, e suas relações consigo mesmas, umas com as outras, e com a vida. Pode ser que a obra se expanda, mas até o momento é este o meu desejo.

Sugestões? Críticas? Palpites sobre os persongens? Serão sempre bem vindos!

See You!