O George tinha razão.
Entre amendoins e cervejas, nesta mesma mesa sebosa, ele me disse:
"Não importa a mínima o que se tem. Não somos criaturas coerentes. Se não temos aquilo que queremos, o que almejamos, não temos nada."
Sinceramente, o que eu tenho? Alguns amigos, uma casa quente, um emprego estável. Aquela bosta. Ninguém pode crescer naquilo. Mas alguém tem que fazer. Acho que a minha cara é mais conhecida nesse buraco depressivo, do que em qualquer outro lugar. O barman me conhece pelo nome, aqui minhas histórias circulam, bem ou mal, é claro. Mas tenho um refúgio, sim, eu tenho caro George. E tenho minha liberdade. Sim, hoje um homem na minha idade não poderia estar nesse pardieiro quando bem entendesse. O Moisés abre isso aqui sempre, todos os dias. Feriados, Natais, Páscoa... Alguns poderiam dizer que o Moisés é um homem sem vida e sem coração. Mas estão enganados. Ele não faz isso pelo dinheiro, embora tenha uma 'dura política sobre serviço a crédito'. Não. O Moisés é uma mãe e um pai. Ele sabe que pessoas como eu, ou mesmo uns tantos outros homens de família, têem aqui o seu refúgio. É aqui que eu, o George, o Álamo, o Sancho nos encontramos desde a faculdade. Sim, tenho companheiros fiéis. Alguns diriam amigos. Acho que sim. O som desta velha e monótona jukebox, essa luz amarelada, o murmurinho dos ébrios, essa atmosfera cheirando a tabaco, lúpulo, roupa velha e lenha crepitante. Essa é a minha verdadeira casa. Não aquela onde eu durmo, como. Aquela cujos azulejos, telhados, eu já recontei infinitas vezes, como já o fiz aqui. Aquela onde o único murmurinho é o som da tv ligada por toda a madrugada. Esta aqui. E o Moisés, é mais compreensivo e gentil do que alguém poderia esperar de qualquer esposa e seus ataques hormonais, seus desejos maternais, suas cobranças... sim, eu sou feliz. Eu poderia até mesmo descer a estrada, e mulheres de toda sorte estaria tentando a sua própria em outros bares, perdidas como eu, e buscando um consolo fugaz para uma noite fria. Sim, e se eu quisesse, poderia forjar um relacionamento duradouro. Porque não? Tenho bons dentes, um sorriso franco, ainda estou em forma. Eu poderia até vender enciclopédias, e ser bem recebido! O que mais poderia querer?
-"Vai querer mais uma?" -Fala a voz fanha de Moisés.Ninguém é perfeito.
-"Sim, bem gelada. E uma Escura também. E, Mô, seria demais pedir outro prato daquela coalhada bem assadinha?"
-"Tanto quanto "pedir" seja algo que você pretenda pagar. E pare de me chamar de Mô! Com esse apelido, e esse tom de voz afetuoso, vou começar a achar que vc está querendo casar comigo, e posso acabar aceitando." -E se volta- "Mas vou avisando, eu ronco pra cacete, não me depilo, e quando eu acordo de manhã minha cama parece que foi visitada pelo Katrina" -Prevenia em tom jocoso.
Rimos. O Moisés é um cara divertido, de raciocínio rápido e que sabe como elevar o ânimo de sua clientela. Seu humor é persipcaz; e com efeito, um homem de avental servindo bebidas e petiscos no feriado para bêbados, flácidos e carentes de atenção realmente soa como algo matrimonial. Ele é um bom homem, e já foi casado. Mas a bebida e o jogo não foram bons com sua família, e hoje o seu maior legado lhe foi deixado por sua ex, quando ela lhe disse "Já que não consegue largar a garrafa, por que não faz disso a sua vida"? Assim mesmo ele fez, juntou o dinheiro de um azarão e comprou esse bar. Fez disso um ambiente aconchegante, e para os padrões masculinos, limpo e respeitoso. Lá estava ele, rodeado de garrfas de bebida, transformando sua antiga fuga num meio honesto de vida. Bom Moisés...
E o George? Esse era um cara bom também. A maioria das pessoas se deixava levar por seu aspecto exterior inexpressivo, e ele próprio era um tanto lacônico com estas pessoas. Dane-se o que as pessoas pensam, dizia ele. Apesar de seu gesticular frenético, e ele era uma pessoa sensata quando discutia qualquer coisa. Morava com o pai, um homem rude, até a faculdade. Desde então rompeu contatos com ele, e se tornou essa pessoa um tanto simples, mas com um bom olhar sobre as pessoas. Era um bom filósofo, muito embora a academia não concordasse com esta colocação. Hoje somos amigos e colegas de trabalho.
Álamo sempre foi o franzino. Baixa estatura, magro, face marcada por vincos precoces desde o colegial. Ele não era ruivo, mas podia muito bem ser; ele era imaturo, e estava todo o tempo tentando se afirmar em alguma coisa. Geralmente contava histórias amorosas dignas do Barão de Munchäusen, se fosse do feitio do mesmo fantasiar mulheres fantásticas e seus encontros nada casuais. Mas era impetuoso e leal, e se em muitos momentos a amizade em nosso grupo estivesse ameaçada, era ele a levantar a bandeira do que cada um de nós era um para o outro. Quando não contava absurdos bombásticos para nos entreter, ele sempre falava como "Nós" e não "Eu". Ele e o Sancho sempre discutiam.
Sancho era um apelido, pois ele tinha ares latinos. Um grosso bigode fazia contraponto à sua face rotunda, assim como o resto dele. Ele sempre tinha uma postura áspera, e segundo ele, 'realista' das coisas. Tinha a mania de falar alto, e sua postura 'macho' por vezes o fazia soar como um exibido. A seu modo, ele era como o Álamo, só que com maior sinergia. Ele era todo auto-afirmação; e por este vero motivo é que ele e o Álamo brigavam tanto. Para o Sancho, Álamo era um perdedor que vivia escondido em suas mentiras sem pé nem cabeça e incapaz de encarar a realidade. E para o Álamo, o Sancho era um mentiroso que usava a própria pose para ser visto como alguém importante. Mas eles eram goiabada e queijo.
"Encontro vocês lá", eu menti. Esta noite está havendo um baile dos veteranos na antiga faculdade, e seria a ocasião perfeita para reviver os velhos tempos. Mas eu estou cansado de reviver os velhos tempos. Revivemos os velhos tempos e celebramos nossa amizade neste mesmo lugar ao menos duas vezes por semana. Hoje é um dia amargo para mim. Quase toda a cidade vai estar lá, e eu já revivo os meus fantasmas todos os dias. Não preciso encontrá-los pessoalmente e cumprimentá-los. Especialmente o 'Boi Ted', a mascote do time em que eu jogava. Ou a Jeanine pom-pom, animadora de torcida. Reitor Micael... a mesma múmia há mais de trinta anos. Dizem que o mal nunca morre, e ele é a prova viva (risos) disso. Não, já chega. Deixem celebrar. Hoje, é a MINHA noite especial. A mais importante dessas três décadas e meia. Hoje a gorjeta do Mô vai ser gorda...
...
quarta-feira, 28 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Parte 3

Não houve resposta. Nada além daquele sorriso presunçoso e moleque. Sentada novamente nos bancos traseiros, ela o fitava zombeteira pelo retrovisor. E toda aquela segurança o irritava. Donovan soube que falou demais.
A petulante então avançou por entre os bancos frontais, a fim de encarar seu irritadiço interlocutor. Irritação de mentira, ela havia constatado. Assim como também descobrira que ele não iria a lugar algum com aquele carro até que ela saísse de lá, apesar das diversas ameaças que Donovan ensaiava. E ela nada fazia além de olhar para ele com aquela profundidade perturbadora, e seu sorriso pueril, lábios ligeiramente entreabertos deixando os incisivos à mostra.
E Donovan sabia que ela estava lendo cada movimento, cada olhar, cada bufar de sua parte. Ele se sentia nu, desprotegido... "Desgraça! Pra que MERDA eu fui falar aquilo?" Ele estava posto em mesa, e aquela... aquela... Ela o estava saboreando, esquadrinhando, analisando e sintetizando... Ele tinha que acabar aquilo, e agora!
"Tá bom, o que é que você quer?" Donovan dizia isso meio como uma espécie de rendição velada. Ele recua o corpo, já que a menina e ele estavam tão próximos que ele respirava o mesmo ar que a garota. Cheirava menta, mas não parecia ser chicles ou coisa parecida. Seu hálito era fresco, naturalmente, e Donovan disfarçadamente o inspirava...
"Apaga isso! Está empesteando tudo!"-brada a garota. Ela avança para alcançar o cigarro em sua mão esquerda, fazendo com que praticamente se debruce sobre o motorista. Toda ela cheirava a orvalho da madrugada sobre flores, desfilando diante de seu nariz. Num gesto fugaz, ela o desarma de sua chaminé particular e atira seu cigarro pela janela, e volta a sua posição inicial.
-"Bem melhor agora", disse a garota com ares de triunfo.
A petulante então avançou por entre os bancos frontais, a fim de encarar seu irritadiço interlocutor. Irritação de mentira, ela havia constatado. Assim como também descobrira que ele não iria a lugar algum com aquele carro até que ela saísse de lá, apesar das diversas ameaças que Donovan ensaiava. E ela nada fazia além de olhar para ele com aquela profundidade perturbadora, e seu sorriso pueril, lábios ligeiramente entreabertos deixando os incisivos à mostra.
E Donovan sabia que ela estava lendo cada movimento, cada olhar, cada bufar de sua parte. Ele se sentia nu, desprotegido... "Desgraça! Pra que MERDA eu fui falar aquilo?" Ele estava posto em mesa, e aquela... aquela... Ela o estava saboreando, esquadrinhando, analisando e sintetizando... Ele tinha que acabar aquilo, e agora!
"Tá bom, o que é que você quer?" Donovan dizia isso meio como uma espécie de rendição velada. Ele recua o corpo, já que a menina e ele estavam tão próximos que ele respirava o mesmo ar que a garota. Cheirava menta, mas não parecia ser chicles ou coisa parecida. Seu hálito era fresco, naturalmente, e Donovan disfarçadamente o inspirava...
"Apaga isso! Está empesteando tudo!"-brada a garota. Ela avança para alcançar o cigarro em sua mão esquerda, fazendo com que praticamente se debruce sobre o motorista. Toda ela cheirava a orvalho da madrugada sobre flores, desfilando diante de seu nariz. Num gesto fugaz, ela o desarma de sua chaminé particular e atira seu cigarro pela janela, e volta a sua posição inicial.
-"Bem melhor agora", disse a garota com ares de triunfo.
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