quinta-feira, 27 de março de 2008

Parte 1


Castigado na face, torso, alguns dentes perdidos...
Inspira, dolorido, a brisa gelada da madrugada. Dirige devagar, parando próximo ao lago...
Acende um cigarro. Nunca fumou na vida. Não pretendia começar agora. Era apenas para criar uma imagem de falsa dignidade, afinal até os condenados pediam um cigarro em seus momentos finais.
-"Argh. Isso fede!" - Deixa o cigarro aceso entre os dedos, deixando a fumaça tênue lentamente preencher a cabina da pickup.
A noite está linda. Ouve os grilos um pouco, e então abre o porta-luvas em busca da arma. Tateia, àquela luz feérica, e o que encontra parece bem diferente de sua expectativa:
-"Que porra é essa?" - A arma estava completamente retorcida, inutilizada. Examinava, perplexo - não havia como aquilo ter acontecido. Havia conferido a arma antes de sair, estava perfeita. Agora até mesmo a bala solitária estava aprisionada no tambor.
Murmurava, em tom baixo, palavras de estupefação em idioma estrangeiro. Não havia nada a se fazer. Sua noite, tão carinhosamente planejada, fora por água abaixo. Ainda que estivesse surpreso, tinha um palpite.
Pensou num plano B.
Manobrou a barulhenta pickup em direção ao pequeno cais de que o lago dispunha para atracar os botes. Alinhou com cuidado a trajetória que ainda existia só em sua cabeça. Sua mão foi à virilha: um último prazer? Não, não se sentia inclinado a isso. Suas conjecturas pareciam boas o bastante, e a surra que tinha levado a algumas horas pareciam satisfazer, também seu espírito.
Apertando os olhos com determinação cênica, passou a marcha e pisou no acelerador à toda velocidade.
-"Pare!"
Olhou para ver de onde vinha a voz. Pelo retrovisor, pôde notar a garota se revelar por trás dos apertados bancos traseiros. Freou!
Perguntou, com o olhar. Ela olhou de volta com outra pergunta; seus olhares eram iguais, de surpresa, de incompreensão, de indignação.
-"O que você 'tá fazendo aqui?"
-"Eu sabia! Ninguém é tão estúpido a ponto de ter uma bala só na arma! Até uma pessoa imóvel pode escapar com um tiro mal dado!"-Responde a garota.
O rapaz olha para o pedaço de metal retorcido que abandonou no banco do carona, e de volta à garota.
-"Isso é obra sua, não é?"
A garota meneia afirmativamente.
-"Eu vi que você estava armado na hora da briga. Tive medo de que fosse matar meu pai mais tarde, então esperei você guardar a arma no porta luvas e quebrei ela."
Suspirando ruidosamente, ele se reclina ao banco. A garota continua.
-"Que pessoa vai matar um homem com uma só bala, briga com três e vai embora de madrugada ferido e espancado?"

-"Seu palpite estava certo" - Acrescenta o homem diante dela -" Só uma pessoa pode dar um tiro com segurança completa..."

"Quando ela mesma é o alvo."

"Satisfeita?"